De corações e outras relíquias

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Por FLÁVIO AGUIAR*

Considerações sobre a exposição de parte do corpo de D. Pedro I

A vinda, recepção com honras militares e exposição do músculo cardíaco (escrevi assim para evitar o eco rimático) do Imperador D. Pedro I ao e no Brasil estão causando um enorme auê, à direita, ao centro e à esquerda do nosso espectro político.

Em meio a toda balbúrdia necrófila, ressaltam por vezes as palavras “só no Brasil…” Mas não é bem assim.

Bom, em primeiro lugar, recordemos alguns outros exemplos brasileiros – do lado comemorativo. Não entraremos nos detalhes daquelas horrendas exposições de corpos despedaçados, como o de Felipe dos Santos Freire, líder da revolta de Mariana, Minas Gerais, em 1720, o de Tiradentes ou as cabeças dos cangaceiros de Lampião.

Comecemos evocando outro episódio, este satírico, envolvendo também os restos mortais do nosso primeiro mandatário independente.

Em 1972 vieram para o Brasil seus outros restos mortais. Não estavam expostos, mas resguardados dentro de uma devida urna, que peregrinou pelo Brasil afora e adentro. Passou também por minha cidade natal, Porto Alegre. Esta atravessava momento de profundas e arraigadas alterações em sua paisagem, com abertura e alargamento de avenidas e também a construção de viadutos. Um deles, no fim da avenida Borges de Medeiros, começo da avenida Beira-Rio, ligando esta perimetral à avenida perpendicular José de Alencar, foi batizado com pompa e circunstância, pondo-se-lhe o nome do Imperador: Viaduto D. Pedro I.

Na cidade há uma longa tradição de nomes duplos para certos logradouros. Por exemplo, muita gente não sabe que o nome oficial da Rua da Praia é Rua dos Andradas; ou que a tradicional Praça da Matriz se chama, no papel, Praça Marechal Deodoro; ou ainda que o Viaduto da Borges tem o nome de Otávio Rocha, e assim por diante.

O Viaduto D. Pedro I foi logo batizado pela Vox Populi como “Viaduto da Marli”. Motivo: ao lado dele vicejava um… bem digamos, “lugar de encontros sorrateiros com finalidades sexuais” que guardava o nome de sua dona, a senhora Marli, digna de todo respeito junto aos varões assinalados da capital gaúcha.

O fato gerou marola e gozação, ajuntando-se à grande fama de conquistador donjuanesco do ilustre filho da Casa de Bragança. Ocorre que estávamos em pleno governo Médici, e aquela irreverência popular ganhou foros de ameaça à sacrossanta Segurança Nacional. Resultado: um belo dia baixou a polícia na veneranda Casa da Marli, e levou todo mundo que lá estava, inclusive a Marli. Não era a polícia civil, nem a de costumes, era a polícia política, o DOPS, para averiguar o que haveria por detrás daquele abuso insultuoso a um símbolo nacional.

Como dona Marli nada tinha a ver com o que se poderia chamar de apropriação de seu nome pela boca do povo para rebatizar o Viaduto, ela foi solta em seguida, junto com os frequentadores da casa, muitos com o rabo no meio das pernas, temendo que suas aventuras à socapa viessem ao conhecimento público e/ou familiar.

O caso entrou para o folclore da cidade, mas como o inexorável tempo acabou engolindo a casa da Marli, a alcunha também desapareceu. Hoje o Viaduto ostenta apenas o nome prosaico do Imperador embora muitos dentre os mais velhos lembrem com saudades dos tempos da Marli e de seu Viaduto. O referido é verdade e damos fé, imprimatur potest e nihil obstat.

Antes de passarmos ao exterior, lembremos que o coração de Santo Dumont repousa em relicário esférico de ouro no Museu Aeroespacial da Aeronáutica, no Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro. E quando criança colecionei santinhos do Padre Reus (pronuncia-se “Róis”), de fama beatífica e milagreira. Junto do santinho vinha, exposto numa dobra de papel duplo, um fiapo de pano preto que se dizia pertencer à batina do padre jesuíta. Iniciado em 1953, oito anos após sua morte, eu processo de beatificação oficial ainda está em curso no Vaticano. Como estes santinhos eram distribuídos aos milhares, imaginamos que o tamanho da batina deveria ser imenso.

Estes procedimentos lembram as práticas medievais que os anti-reformistas jesuítas trouxeram para o futuro Brasil, de exposição pública de relíquias de santos, que podiam ser desde um pedaço de osso até uma cabeça mumificada das onze mil virgens.

Passando ao Velho Mundo cheio de porteiras, em quatro países do continente (Itália, França, Croácia e Espanha) repousam (?) pelo menos nove corpos expostos de santos e santas, de diferentes épocas e com diversos graus de preservação. Mas nada supera a exposição da língua de Santo Antonio na Basílica de Pádua, na Itália, junto com partes de seu braço esquerdo, queixo, de um pé, e de peles e cabelos de seu corpo. Lembremos ainda que pedaços destes ossos foram remetidos para outras cidades, como doação, inclusive para Lisboa, sua cidade natal.

Por toda a Europa, do Cabo da Roca, no Atlântico, aos Montes Urais, que faz a divisa com a Ásia, do Ártico ao Mediterrâneo, encontra-se um número sem fim de igrejas e monastérios com remanescentes de santos e santas. Como o número tende ao infinito, não podemos enumerá-los todos. Podemos, no entanto, recomendar especialmente um, o Monastério de Andechs (Andechs Kloster), nos Alpes Bávaros, na Alemanha.

Na igreja encontram-se os restos mortais das santas Pauline e Serene, além de um pedaço do crânio de Santa Edwiges da Silésia e nada mais nada menos do que um espinho da coroa de Cristo!. Depois de sua visita e orações o (a) peregrino (a) pode comemorar o feito no Bier Garten do monastério, saboreando a famosíssima cerveja de produção própria, comendo um pouco de toicinho de porco e outros acepipes locais. Como ela é fortíssima, recomenda-se extra-moderação e não dirigir depois. O transporte público é acessível e constante.

Prosseguindo nosso périplo, passamos ao continente asiático. Nele repousa, mais precisamente na Igreja de Bom Jesus, em Goa, no sul da Índia, o corpo de São Francisco Xavier. De dez em dez anos o corpo é transportado em procissão para a Catedral da Sé, onde fica exposto durante cinco semanas, na época do Natal. Como o estado do corpo se deteriorou um pouco com o passar dos séculos, apesar dele ser considerado “incorruptível”, sua contemplação não é recomendada para portadores de marca-passo ou pessoas emocionalmente fragilizadas. Em tempo: o braço direito do santo foi doado à Chiesa del Gesú, Igreja de Jesus, no centro de Roma, considerada a matriz da Ordem dos Jesuítas. Lá ele repousa numa capela ao lado de outra, onde estão os restos mortais de São José Pignatelli.

Mas nada, nada mesmo, nos impressionou tanto quanto a visita ao Museu do Palácio de Topkapi, em Istambul, na Turquia. Deixe de lado minigâncias como o Harém, onde se acotovelavam simultaneamente até 300 concubinas do Sultão, além de suas 4 esposas legítimas, e passe direto às salas das relíquias, no Museu. Ali o visitante pode se divertir com aperitivos, como uma túnica de Maomé ou um vestido de sua esposa. Mas o importante são os pratos principais: um pedaço de dente do Profeta, fios de sua barba (lembramos do famoso grito do locutor Silvio Luiz, “pelas barbas do Profeta”), uma pegada sua impressa numa pedra, o turbante de Josué, a espada de Davi, o osso do braço de São João Batista, um pote de Abraão e – relíquia das relíquias – o cajado de Moisés!

Ficamos extasiados diante dele: parecia novo, como se tivesse levado uma mão de verniz. Aquele cajado virara uma serpente na frente do Faraó, e depois desvirara; ao tocar as águas do Nilo, transformou-as em sangue; ao empunha-la perante as águas do Mar Vermelho, Moisés as abriu, como se fossem gelatina, e depois as fechou de volta sobre as tropas egípcias, graças aos poderes da vara de madeira. Como diz a Bíblia, Tua Vara nos consola.

Esta menção ao cajado de Moisés nos traz de volta ao coração de D. Pedro I, ou mais precisamente, ao quadro de Pedro Américo, “Independência ou Morte!”. Este quadro, hoje tão acusado de ser fake news com antes fora incensado como reprodução fiel dos fatos, é das peças mais injustiçadas da pintura brasileira. Pois em ambos os casos – fake news ou louvação – trata-se o autor como se ele devesse ser considerado um fotógrafo do século XX, ao invés de um pintor acadêmico do XIX com pendores alegóricos. Nele, a espada de D. Pedro, elevada sobre sua cabeça, faz a ligação com o céu e capta a energia que dele emana, assim como o cajado mosaico o fez perante as águas do Mar Vermelho.

Resta-nos uma dúvida. O coração em tela está preservado em formol. Ao ler no jornal O globo a entrevista da médica que se jacta de ter dado a ideia de trazer o coração ao ocupante do Palácio do Planalto, para as comemorações, e lembrando que ela fora escalada para defender, na CPI da Pandemia, o kit do tratamento precoce, veio-me à mente a seguinte pergunta: não seria melhor trocar o formol pela cloroquina, para assim melhor proteger o coração pátrio?

*Flávio Aguiar, jornalista e escritor, é professor aposentado de literatura brasileira na USP. Autor, entre outros livros, de Crônicas do mundo ao revés (Boitempo).

 

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